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Agosto Verde: Complicações do Alzheimer matam uma pessoa por dia em MS

Nas horas finais, a doença fez uma justa trégua para a mãe demonstrar à filha a certeza do amor e da gratidão. “Ela me chamou com a mão – estava ca...

Redação
Por: Redação Fonte: Assembleia Legislativa - MS
10/08/2026 às 16h51
Agosto Verde: Complicações do Alzheimer matam uma pessoa por dia em MS
Tetis Mota Cangussú falecida em 2025, aos 90 anos, em decorrência do Alzheimer

Nas horas finais, a doença fez uma justa trégua para a mãe demonstrar à filha a certeza do amor e da gratidão. “Ela me chamou com a mão – estava cansada, falando baixinho – e disse ao meu ouvido: ‘Josi, filha amada, eu amo você. Muito obrigada’. Naquela mesma noite, ela partiu”, lembra-se Josiane Mota Cangussú de um fragmento de sua vida, ocorrido em junho do ano passado em um quarto da Santa Casa de Campo Grande. A mãe dela, Tetis Mota Cangussú, faleceu aos 90 anos em decorrência do Alzheimer.

Histórias como a de Josiane são vivenciadas, com aproximações e distanciamentos, por inúmeras famílias. Apenas no ano passado, morreram 337 pessoas em Mato Grosso do Sul por complicações relacionadas ao Alzheimer. A média é de uma morte a cada 26 horas – praticamente, um óbito por dia. A atenção a essa doença ganha ainda mais relevância neste mês, devido ao “Agosto Verde”, campanha instituída pela Lei Estadual 5.088/2017 , de autoria de parlamentares da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS).

Arte produzida por IA
Arte produzida por IA

Embora o “Agosto Verde” seja frequentemente associado à depressão e à ansiedade, a campanha contempla as doenças mentais, de modo geral, e neurodegenerativas, como o Alzheimer, nas ações educativas e preventivas realizadas ao longo do mês. A campanha ocorre neste período do ano em razão do Dia Nacional da Saúde, celebrado em 5 de agosto.

Alzheimer: 337 mortes em um ano   

Dados do Ministério da Saúde mostram a dimensão do problema em Mato Grosso do Sul. Em 2025, foram registrados pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus) 337 óbitos resultantes da doença de Alzheimer no Estado – é uma morte a cada 26 horas.

Neste ano (até o fim de maio), são 127 mortes, média de 25 falecimentos por mês. Nos últimos cinco anos (desde 2022), Mato Grosso do Sul soma 1.430 mortes decorrentes do Alzheimer: 305 em 2022; 315 em 2023; e 346 em 2024.  

Acesse aqui os dados do Datusus. 

“Os ciclos da vida precisam ser respeitados”, afirma Josiane

O que consta no banco de dados do Datasus são números. Quem adoece e morre são pessoas.

 Tetis Cangussú não é, meramente, um dos 337 casos registrados em 2025. Ela era mãe, avó, tia, leitora assídua, desenhista, pintora, organizadora de festa infantil, habilidosa na resolução de palavras cruzadas, inteligente, solidária. “Mamãe era um ser de uma bondade incrível com todos: familiares, irmãos, sobrinhos e, principalmente, com os pais e os filhos”, lembra-se Josiane.

Apesar da doença, era possível vivenciar momentos de descontração (Foto: Acervo pessoal)
Apesar da doença, era possível vivenciar momentos de descontração (Foto: Acervo pessoal)

“Era uma pessoa extremamente inteligente. Fazia palavras cruzadas das mais difíceis, adorava ler e tinha uma capacidade criativa espetacular. Gostava de criar festas infantis, desenhar, pintar, recortar. Nós tínhamos um buffet de festas de casamento, aniversários de 15 anos e festas infantis. Bastava dizer o tema que ela assistia aos desenhos na televisão e criava toda a decoração”, rememora a filha.

A manifestação da doença de Alzheimer transformou Tetis. Vieram alterações de comportamento, episódios de agressividade e o comprometimento da memória. Algumas vezes, correu com tesoura ou faca atrás da irmã de Josiane, com quem morava. “Eu vou matar essa menina”, dizia, por estar contrariada com algo simples, como o pedido para que não fumasse na cama. Também levantava para fazer café de madrugada e esquecia o gás ligado, entre outras situações.

A família precisou tomar uma difícil decisão, mas acertada, como avalia Josiane, a de colocar Tetis em uma pousada particular para idosos. “Meu marido, então, se propôs a assumir a despesa. Disse que era melhor pagar do que ver, além da minha mãe, toda a família adoecer”, relata. “Na pousada encontramos pessoas extraordinárias. A dona do lugar tinha verdadeiro dom para cuidar de idosos. Como mamãe ainda pintava muito bem, montaram um ateliê só para ela”.

Abaixo um momento de interação entre Josiane, sua netinha e sua mãe. O Alzheimer já estava em estágio avançado. 

Tetis e Josiane acompanhadas de outras pessoas na casa de respouso  (Foto: Acervo pessoal)
Tetis e Josiane acompanhadas de outras pessoas na casa de respouso  (Foto: Acervo pessoal)

Nenhum cuidado consegue impedir algo irreversível. Mesmo com atenção que Tetis recebia das pessoas da pousada e dos familiares, a doença se agravava cada vez mais. “A mudança que mais me chocou foi o olhar vazio, distante. Ela ficava olhando para o horizonte com uma tristeza profunda, sem enxergar nada”, lembra Josiane. Depois já não se lembrava de quase ninguém da família e confundia eventos distantes e recentes, queixando-se dos pais, falecidos há muito tempo, de não visita-la, por exemplo.

“Tenho a consciência tranquila por ter dado o melhor de mim. Os ciclos da vida precisam ser respeitados”, afirma Josiane com serenidade. E serena também foi a despedida derradeira. “No dia 11 de junho do ano passado, na Santa Casa, às sete horas da noite, fui me despedir da minha mãe para ir para casa. Disse: ‘Mãezinha, vou dar uma descansada e amanhã c

edo eu volto’. Ela me chamou com a mão. Falava baixinho, já estava muito cansada. Cheguei perto para ouvi-la. Ela disse ao meu ouvido: ‘Josi, filha amada, eu amo você. Muito obrigada’. Naquela mesma noite, às 23h40, ela partiu”, finaliza.

Leia aqui o relato detalhado da Josiane.

Características, tratamento e formas de prevenção

Mesmo lendo muito, Tetis Cangussú não foi poupada pelo Alzheimer. No entanto, a leitura e outras atividades de estímulo cerebral, embora não sejam capazes de impedir o desenvolvimento do Alzheimer, podem contribuir para a formação da chamada reserva cognitiva, capacidade adicional do cérebro para compensar perdas decorrentes do envelhecimento ou de doenças neurodegenerativas. É o que explica o presidente do Capítulo Estadual de Mato Grosso do Sul da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Gabriel Pereira Braga, ao destacar a importância do estudo e da escolaridade na proteção contra a manifestação dos sintomas. “Quanto maior a nossa escolaridade, mais protegidos estamos no desenvolvimento dos sintomas do Alzheimer, pois teremos uma reserva cerebral maior para suportar essa perda neuronal que acontece com o tempo”, afirma o neurologista.

Gabriel Braga, membro da Academia Brasileira de Neurologia (Foto: Acervo pessoal) 
Gabriel Braga, membro da Academia Brasileira de Neurologia (Foto: Acervo pessoal) 

Ele também explica que não é, propriamente, a doença de Alzheimer que mata, mas as complicações por ela agravadas. “O Alzheimer é uma doença neurológica degenerativa, o que significa, em termos simples, que ela evolui com a morte de alguns neurônios. Nenhum desses neurônios, no entanto, está relacionado, propriamente dito, a funções vitais”, elucida. “Não é correto dizer que a pessoa morre de Alzheimer, mas sim em consequência das complicações relacionadas à doença”, resume.

Essas complicações decorrem, em estágios mais graves, do comprometimento de funções automáticas, como a capacidade de engolir (deglutição). “Isso, por sua vez, predispõe a acidentes como broncoaspiração, que é quando a gente engasga com determinada partícula de alimento, levando ao desenvolvimento de pneumonia e outras condições que acabam resultando no óbito”, exemplifica o médico.

Em relação ao tratamento, Gabriel Braga explica que, nas fases iniciais, são usadas medicações como anticorpos monoclonais (proteínas feitas em laboratório que imitam a ação dos anticorpos naturais), que ajudam a retardar a manifestação dos sintomas. “Nas fases mais avançadas, o tratamento se baseia num tripé, composto de controle comportamental, prevenção de complicações clínicas e algumas medicações que têm como objetivo aumentar neurotransmissores na fenda sináptica, dando mais tempo de memória para esse paciente”, completa.

Segundo informa o neurologista, o Alzheimer resulta da combinação entre fatores genéticos e estilo de vida. “A carga genética é condicionada principalmente naquelas famílias que têm vários parentes, várias gerações com história de declínio cognitivo e pode ser identificado com testes genéticos específicos”, informa. O sedentarismo, o consumo de álcool, dietas ricas em ultraprocessados e gorduras saturadas, traumatismos cranianos de repetição, figuram entre os principais fatores de risco, conforme complementa o médico.

Para preservar a saúde cerebral e tentar prevenir o Alzheimer, o especialista destaca a importância de hábitos saudáveis, como a prática de atividades físicas e a adoção de padrões alimentares equilibrados, a exemplo da dieta mediterrânea, rica em azeite, nozes, cereais e peixes.

Confira aqui o texto e, abaixo, o áudio da entrevista na íntegra com o neurologista Gabriel Braga.

Política Nacional

Em junho de 2024, foi sancionada a Lei Federal 14.878/2024 , que instituiu a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências. A normativa traz princípios e diretrizes para o tratamento da doença e determina que o Ministério da Saúde desenvolva campanhas de orientação e conscientização em clínicas, hospitais públicos e privados, postos de saúde, unidades básicas de saúde e unidades de pronto atendimento.

O texto estabelece um plano de ação conjunta entre poder público, prestadores de serviço, comunidade acadêmica e sociedade civil. A efetivação da Política Nacional ocorre por meio da articulação multissetorial, especialmente de áreas como saúde, previdência e assistência social, direitos humanos, educação, inovação, tecnologia e outras consideradas importantes nas ações.

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